Alexandr Fier jogando

Alexandr Fier: O grande mestre brasileiro que conquistou o mundo do xadrez

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O jogo de xadrez tem produzido ao longo dos séculos figuras lendárias que transcendem o tabuleiro. No Brasil, um país mais conhecido por suas paixões futebolísticas, o xadrez encontrou em Alexandr Hilário Takeda Sakai dos Santos Fier um representante de peso, um talento excepcional que elevou o nome da nação ao cenário internacional.

Nascido em Joinville, Santa Catarina, em 11 de março de 1988, Fier é hoje um dos maiores enxadristas da história brasileira. É um Grande Mestre Internacional (GM) cuja carreira é marcada por conquistas impressionantes, um estilo de jogo ousado e uma dedicação incansável ao esporte da mente.

Quem é Alexandr Fier no mundo do xadrez?

Conheça a carreira e os feitos importantes desse grande mestre do xadrez mundial.

Infância e primeiros passos no xadrez

A história de Alexandr Fier com o xadrez começou cedo, quase como um destino traçado dentro de casa. Filho de uma professora de matemática e de um analista de sistemas, ambos entusiastas do jogo, Fier teve seu primeiro contato com o tabuleiro ainda na infância, por volta dos três ou quatro anos.

Inicialmente, suas “jogadas” eram mais brincadeiras desajeitadas com as peças, mas o interesse genuíno logo se transformou em paixão. Aos sete anos, em 1995, ele já competia oficialmente, vencendo o Campeonato Paranaense Sub-10 de forma invicta — um feito notável para uma criança tão jovem. Esse triunfo inicial foi apenas o primeiro de muitos, sinalizando o surgimento de um prodígio.

Aos oito anos, em 1996, Fier alcançava outro marco: tornava-se Mestre FIDE, uma titulação que poucos conseguem tão precocemente. Dois anos depois, em 1998, ele consolidava seu talento ao conquistar o vice-campeonato mundial Sub-10, disputado em Oropesa del Mar, na Espanha.

Esse resultado o colocou no radar internacional, destacando-o como uma promessa não apenas do xadrez brasileiro, mas do cenário global. Durante esses anos de formação, Fier acumulou títulos em categorias de base, incluindo campeonatos brasileiros, pan-americanos e sul-americanos. Desde o princípio ele demonstrou uma consistência impressionante para alguém ainda em desenvolvimento.

A ascensão ao título de grande mestre

O caminho para o título de Grande Mestre Internacional, o mais alto reconhecimento no xadrez, foi trilhado com determinação e momentos decisivos.

Em 2004, aos 16 anos, Fier obteve o título de Mestre Internacional (MI) após uma performance brilhante no VI Magistral Comunic, em São Paulo. Nessa competição ele conquistou sua primeira norma de MI com 7,5 pontos em 9 possíveis.

Ainda naquele ano, ele representou o Brasil nas Olimpíadas de Xadrez em Calvià, na Espanha, ganhando experiência valiosa em competições de alto nível. Esses eventos marcaram um ponto de virada: o xadrez deixava de ser apenas uma paixão juvenil e se tornava uma carreira séria.

Em 2007, aos 18 anos, Fier alcançava o sonho de muitos enxadristas: o título de Grande Mestre Internacional. Ele se tornava, na época, o segundo brasileiro mais jovem a conquistar essa distinção, atrás apenas de Rafael Leitão, que o fizera em 1998.

A conquista veio após uma série de performances excepcionais, incluindo o Torneio Parque das Águas Claras, onde alcançou uma performance de rating de 3120. Esse número é comparável às atuações históricas de lendas como Bobby Fischer. Esse feito não apenas solidificou sua reputação como um jogador de elite, mas também o colocou como uma força a ser reconhecida no xadrez mundial.

Alexandr Fier

Estilo de jogo: O “No Fier” sem medo

Uma das características que definem Alexandr Fier é seu estilo de jogo agressivo e imprevisível. Apelidado por fãs e comentaristas como “No Fier” — um trocadilho com a expressão inglesa “no fear” (sem medo).

Diferente de jogadores que priorizam a solidez posicional, Fier é conhecido por buscar complicações táticas, sacrificar peças em prol de ataques ousados e explorar variantes arriscadas que desafiam a lógica convencional.

Essa abordagem o torna um adversário temido, capaz de virar partidas aparentemente perdidas com recursos criativos e um cálculo afiado, especialmente em finais.

Seu estilo reflete não apenas sua personalidade destemida, mas também uma filosofia de jogo que valoriza a inovação. Fier é um estudioso incansável, frequentemente analisando milhões de partidas em bases de dados e desenvolvendo ideias originais para surpreender seus oponentes.

Ele próprio já declarou que, em um mundo onde as aberturas mais comuns estão amplamente disponíveis na internet, criar novas estratégias é essencial para se destacar. Essa mentalidade o levou a vitórias memoráveis contra alguns dos melhores jogadores do planeta.

Conquistas e momentos marcantes

A carreira de Fier é repleta de títulos e performances que atestam sua grandeza. Em 2005, ainda com 17 anos, ele venceu seu primeiro Campeonato Brasileiro Absoluto, em Guarulhos, de forma invicta — um prenúncio de sua dominância futura no cenário nacional.

Ele repetiria o feito em 2017, 2019, 2022 e, mais recentemente, em dezembro de 2024, conquistando seu quinto título brasileiro em Natal, Rio Grande do Norte, durante o 90º Campeonato Brasileiro Absoluto, que celebrou os 100 anos da Confederação Brasileira de Xadrez (CBX).

No âmbito internacional, Fier também deixou sua marca. Em 2009, ele venceu o Torneio Zonal Sul-Americano 2.4 da FIDE e o prestigiado XI Open Internacional de Sants, na Espanha, alcançando pela primeira vez o topo do ranking brasileiro e sul-americano.

Naquele mesmo ano, atingiu seu rating máximo de 2653, posicionando-se como o 76º melhor jogador do mundo. Esse foi o pico mais alto já alcançado por um enxadrista brasileiro até então. Outras vitórias notáveis incluem o XTRACON GM Open na Dinamarca (2014), o Hampstead Masters em Londres (2014), o bicampeonato do Aberto da Bulgária (2015 e 2016) e o Festival Mare di Fano na Itália (2016).

Fier também brilhou em competições por equipes, representando o Brasil em diversas Olimpíadas de Xadrez, como as de Torino (2006), Khanty-Mansiysk (2010) e outras, além de participar da Copa do Mundo da FIDE em várias edições (2009, 2011, 2013, 2015, 2017 e 2023).

Embora nem sempre tenha avançado às fases finais nesses torneios eliminatórios, suas vitórias contra jogadores de elite, como Wang Yue em 2011 e Radoslaw Wojtaszek em 2013, mostram sua capacidade de competir no mais alto nível.

Vida pessoal e influência

Desde 2013, Fier vive em Tbilisi, capital da Geórgia, com sua esposa, a Grande Mestra Nino Maisuradze, e seu filho, Viktor. O casal, que se conheceu nos tabuleiros e transformou uma rivalidade em amor, compartilha a paixão pelo xadrez, treinando juntos por horas diariamente. A mudança para a Geórgia, um país com forte tradição enxadrística, facilitou sua participação em torneios europeus, ampliando, assim, seu alcance internacional.

Além de suas conquistas como jogador, Fier inspira uma nova geração de enxadristas brasileiros. Acima de tudo, sua trajetória, marcada por talento natural e trabalho árduo, serve como exemplo de que é possível alcançar a excelência em um esporte dominado por potências como Rússia, Estados Unidos e China.

Ele também desafia o establishment do xadrez ao questionar estratégias tradicionais e propor abordagens inovadoras, contribuindo, assim, para a evolução do jogo.

Legado e futuro

Aos 37 anos em 2025, Alexandr Fier está no auge de sua carreira, mas ainda tem muito a oferecer. Com um rating atual que o mantém entre os melhores do Brasil e da América do Sul, ele continua sendo uma figura central no xadrez nacional.

A barreira dos 2700 pontos, um marco que poucos enxadristas alcançam, permanece como um objetivo tangível — e, se alcançado, será um feito histórico para o Brasil.

Seu legado, porém, vai além dos números. Sobretudo, Fier é a prova de que o talento, aliado à ousadia e à dedicação, pode romper fronteiras.

Fier não apenas colocou o Brasil no mapa do xadrez mundial, mas também mostrou que o “No Fier” é mais do que um estilo de jogo. Trata-se de uma mentalidade que desafia limites e inspira outros a sonhar grande. Enquanto ele continuar movendo as peças com sua característica audácia, o mundo do xadrez terá motivos para acompanhar de perto cada um de seus lances.

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